A Deusa das pequenas coisas

Hoje amanheci assistindo um dos vídeos matinais da minha amiga Márcia Frazão. Nele ela falava sobre ler os sinais que o amanhecer nos traz, ou seja, perceber na Natureza, literalmente, o Sagrado.

Daí ela passava à explicação de que pessoas podem ter sido validamente iniciadas em uma tradição de bruxaria ou qualquer outra vertente, sem que isso, necessariamente as faça compreender a Natureza como o Sagrado. Concordo plenamente com ela e assino embaixo.

Num mundo cada vez mais urbano e menos rural esse desligamento do que é natureza é bem comum, ou pelo menos as pessoa se iludem que seja… Mas seria isso necessário? Claro que não!

Todo mundo tem acesso à Natureza, simplesmente porque TUDO que existe, até uma grande cidade, uma Selva de Pedra, é Natureza…

A bruxaria é também chamada The Craft, ou a Arte, a Arte dos Sábios. Mas em que consiste essa Arte e essa Sabedoria? Isso se define justamente como a capacidade de entender a natureza como si mesmo, recuperando os saberes das sociedades tribais, como as nações indígenas brasileiras: a natureza é parte da sociedade humana, se integra com ela.

Para os Povos indígenas brasileiros a civilização e a cultura são pré-humanas. Em muitas sociedades, foi a Deusa Onça, chamada por alguns Kianumaka-Manã que fez a humanidade conhecer o fogo, a agricultura, a arte da tecelagem, do cozimento dos alimentos, da confecção de cerâmica. Ela tem um paralelo intrínseco com a Deusa Abelha (e diversos povos indígenas chamam a Deusa Abelha de Deusa-Onça-Voadora, pela similitude das cores de seus corpos) uma Delas abrindo as portas do mundo natural e suas delícias – o mel é o que de mais doce se conhece na natureza da Terra Brasilis – a outra abrindo as portas da civilização, mas civilização humana que apenas se define pelo aprendizado das coisas da natureza.

Por isso eu, que sou uma iniciadora, sempre indico como primeira lição a quem se dedica na bruxaria comigo a seguinte tarefa: CONHEÇA A NATUREZA REAL E CONCRETA.

Eu peço que as pessoas OBSERVEM e possam responder em concreto as seguintes perguntas:

“Que horas o sol nasce e se põe onde você mora? Que horas a lua nasce e se põe? Como é a dança das estações refletida no seu jardim ou nos vasos do seu apartamento, ou nas praças e jardins botânicos de sua cidade? Como são os ventos ? De que lado eles sopram, como o musgo cresce nas pedras e árvores pelas quais você passa a caminho do trabalho? Como as tempestades afetam sua cidade? Há muitos ou poucos raios, o que eles provocam? Como as flores do seu jardim se comportam em dias de pouco sol ou pouco vento? E como elas agem nos excessos? Como os cristais que você tem em casa se comportam com mudanças climáticas? Como eles mudam em função de mudanças emocionais dos habitantes da casa? Como seus animais sentem suas emoções? Como eles expressam isso? Como os ciclos lunares afetam seu corpo? E os animais? E as plantas? E os cristais? E as árvores? Quando os insetos, os pássaros, as lagartixas e sapos chegam na sua casa com mais frequência ou menos? O que as árvores do seu jardim podem te ensinar? Você já parou para ouvi-las? E as pedras? Você já parou para pensar que qualquer simples seixo do seu jardim ou que você comprou para enfeitar seu vaso de suculentas está aqui desde a formação do planeta Terra? Você já perguntou a esse seixo o que ele tem de experiência acumulada para partilhar com você? Cada bocado de tempero que você coloca na sua comida tem os segredos daquela erva e do sal, conservador da vida. Cada legume, cereal, fruta ou animal que morreu para que você se alimentasse tem uma sabedoria a partilhar, a sabedoria do sacrifício, da inevitabilidade dos ciclos… Você já conversou com a sua comida? Você já conversou com a água que você bebe ou na qual se banha? O fogo que acende para fazer seu café da manhã ou o que coloca seu carro em movimento?”
Só por essas singelas perguntas, que poderiam se desdobrar em milhares de outras, você já pode perceber que se tornar bruxa ou bruxo significa, muito antes de iniciações, graus e títulos, SABER OUVIR A NATUREZA. Afinal a Deusa é a Natureza, nada mais, nada menos.

Como a Natureza que é você aprende a dialogar e receber a colaboração da natureza a sua volta? É essa pergunta que você precisa poder responder para que consiga fazer magia do tipo que bruxas e bruxos fazem.

Quando você souber como esse diálogo da Natureza – dos 5 elementos – de dentro e de fora de você se faz, quando você entender que tudo é uno e integrado – dai seus feitiços funcionam, seus oráculos são incríveis, sua magia se faz presente em todas as coisas e é notada por todos.

Mas tudo isso depende apenas de uma coisa: ver nas menores coisas da Natureza a Deusa e escutar Sua Voz.

Se você o fizer, um dia dispensará o calendário para saber a fase da lua, conseguirá ver seu futuro no vôo dos pássaros ou no estado dos botões de rosa do seu jardim. Conseguirá entrar em casa e saber na sua própria pele se um animal esta doente, se uma planta precisa de água ou de sol. Entrará numa sala e saberá com a clareza de um telepata o que as pessoas pensam das outras e conseguirá harmonizar o ambiente só dando um sorriso no lugar certo,na hora certa…

Isso é ser bruxa ou bruxo: reconhecer, antes de mais nada, e aprender a fluir com Ela, a Deusa das Pequenas Coisas.

A Deusa que há em mim, saúda a Deusa, que é o Todo, que há em você! Namastê!