Sobre o preconceito contra as bruxas de São João de Meriti – RJ

NEVER AGAIN

Um grupo de bruxas, vestidas de preto, brandindo instrumentos de sua fé e entoando estranhos chamados como “Khaire Hekate” e outros mais, ininteligíveis para quem não está acostumado com eles, foi filmado por um transeunte que se espantou com a cena e o vídeo viralizou na internet.

A reação inicial do público foi chamá-los desde de “cosplay de Harry Potter” até “coisa do diabo”, mas – ao fim e ao cabo – via-se que era apenas mais uma ocasião em que um grupo minoritário era apontado como “o outro” e ridicularizado ou demonizado por isso. Nada que a comunidade da Wicca – ou, para falar a verdade, qualquer cultura minoritária – já não esteja acostumada.

As cores da intolerância, porém, se tornaram mais fortes quando líderes religiosos evangélicos começaram a conclamar seus fieis para que se levantassem contra as bruxas, fazendo circular uma versão editada do vídeo, onde entremeavam-se cenas do vídeo original com supostas imagens de sacrifício de crianças.

Apenas como um chamado à consciência, imagine por um instante se o vídeo fosse de um grupo de cristãos, vestidos de branco, brandindo suas bíblias e outros instrumentos de sua fé e entoando “Glória a Deus! Aleluia irmãos!”. Haveria espanto? Haveria ridicularização e demonização?

Nestes tempos de sectarismo e polarização, de notícias falsas e pós-verdades, essas tentativas de pintar “o outro”, o diferente, como o demônio a ser exorcizado vêm se tornando frequentes e, pior, perigosas, vez que podem facilmente se transformar em situações de violência concreta contra grupos minoritários.

As autoridades locais civis e policiais já foram alertadas da situação e parecem estar agindo para proteger as pessoas envolvidas e investigar as responsabilidades, inclusive criminais, de quem divulga a versão falsa do vídeo.

No entanto, cabe a todos nós refletir sobre os rumos que queremos para nossa sociedade.

(Manifestação oficial da TDB – Tradição Diânica do Brasil sobre episódio de preconceito religioso em setembro de 2018)