Vivendo Relações Amorosas Sustentáveis

Há muitos anos venho dando aconselhamento espiritual para o público. Seja como taróloga, terapeuta holística e xamânica, ou no exercício de meu sacerdócio na Wicca, a bruxaria moderna, já encontrei e partilhei de milhares e milhares de histórias de gente. 

Gosto de ouvir, ponderar, acalmar ânimos exaltados, ajudar a analisar as alternativas, buscar as melhores escolhas e tenho vocação para compreender a história pessoal de cada um. Por isso, tornei-me há anos conselheira de muitas pessoas que buscam em primeiro lugar uma ouvinte, depois alguém que possa testemunhar a vida para cada um deles. É impressionante como as pessoas se esquecem do que queriam, do que desejaram, de quais eram suas verdadeiras aspirações. As pessoas acham que merecem pouco e, por medo e insegurança, se contentam com menos ainda. A maioria das pessoas vive a vida catando migalhas de alegria e mendigando felicidade instantânea e fugaz. E isso só as torna absurdamente infelizes, cada vez mais insatisfeitas, cada vez mais tristes e desiludidas. 

Seja de pessoas que acompanho há anos, seja de pessoas que me consultam apenas uma vez, busco contribuir com compaixão respeitando cada dor, cada dificuldade narrada, cada busca de cura . 

Mas nenhum assunto é mais falado, repetido, analisado, desejado, ansiado do que as relações românticas. 

Neste período de Mabon, o Deus Celta do Amor, é  interessante que olhemos esta Segunda Colheita sob esse prisma: que venho eu colhendo de amor em minha vida? O que eu tenho a agradecer nesse campo da minha vida e como eu cheguei até esta situação? Qual foi meu plantio para estar agora tendo nos meus campos amorosos estes resultados? 

Creio que de cada 10 pessoas que consultam oráculos, 15 tratam de amor. 

E por que será que essa é, inegavelmente, a maior preocupação das pessoas? 

Fomos criados na cultura do “… e eles viveram felizes para sempre”, a mesma cultura que considera “corretas”  apenas as relações heterossexuais monogâmicas, com pacto de fidelidade “até que a morte os separe” e que gerem filhos. 

Mas o modelo que os contos de fadas nos apresentam não é, nem de longe, o que a vida nos mostra. Viver relações românticas é complexo, complicado, confuso e muitas vezes assustador. 

O Amor é a energia da criação, mas também, como não poderia deixar de ser,  é a energia da destruição. Ele gera as paixões e movimenta as pessoas e todos os seres, mas pode ser a força mais destrutiva que existe, justamente porque nada a ela se compara em magnitude e força. 

As pessoas são famintas de amor.

Elas crêem que se tiverem Amor em suas vidas, nada mais fará falta. Idealizam o encontro amoroso como algo sublime e perfeito, que surgirá num passe de mágica e modificará tudo o que há de ruim e difícil no dia a dia. Plim! 

Pena que isso está muito longe da realidade. 

Essa visão ilusória do amor é a maior responsável pelas pessoas serem infelizes. Quando se espera de algo ou alguém uma coisa que não está em sua natureza, estamos fadados ao desapontamento. 

Exemplifiquemos: se alguém esperar de um lobo que jamais queira comer uma ovelha, certamente se decepcionará. É da natureza dos lobos considerar as ovelhas suculentas e saborosas… 

Imagine alguém que dedique sua vida a condicionar um lobo a não desejar comer ovelhas, a ser vegetariano… Por um certo tempo, o condicionamento até pode ser vencedor, mas na competição com a natureza intrínseca do lobo, com o que ele realmente é, vai acabar perdendo e o lobo vai se banquetear, mesmo que tenha “peso na consciência” depois… 

Essa história apenas serve para ilustrar que não se pode criar relações amorosas em torno de padrões e exigências que um ser humano específico, real e concreto, avaliado em suas idiossincrasias, seja incapaz de cumprir.  

O patriarcado, como sistema de dominação e opressão tanto de homens quanto de mulheres, criou algumas ilusões sobre o relacionamento romântico. Essas normas, consideradas na sociedade ocidental o padrão da normoafetividade ( um casal composto de homem e mulher, que deverão gerar filhos, que, por sua vez, reproduzirão os valores  e modo de viver de seus pais) tem suas origens ligadas ao surgimento e hegemonia do capitalismo, com suas regras sobre a herança da terra. O patriarcado e as religiões patrifocais, retilíneas e de transcendência que lhe são garantidoras criou uma ilusão. A cruel ilusão do esperar “a uma pessoa certa”, “the one”. Sua “alma gêmea”, uma metade perdida de você, sem a qual ninguém é completo e sem a qual ninguém será realmente feliz. Essa ilusão de que apenas um ser humano é responsável pela felicidade integral de alguém gera um sem número de interdições e proibições, mata a espontaneidade do desejo sexual, serve ao monopólio do prazer, no mais das vezes expresso no rígido controle sobre o corpo feminino, sua aparência, as atitudes das mulheres, o que lhes é permitido ou proibido. 

Nós, que rompemos com o patriarcado e vivemos como pagãs e pagãos, precisamos perceber que até mesmo nossas relações e expectativas amorosas precisam ser revistas à luz de uma libertação de alguns conceitos desses que escravizam o desejo e as aspirações da maioria. E mesmo que alguém não seja pagão, mas ainda se insira nas religiões dominantes, essa liberação desses conceitos escravizantes somente será benéfica.